Ratinhos

Talvez a característica mais ardilosa do Facebook, Instagram, Twitter e similares é a capacidade de tomar seu tempo enquanto dá a impressão de que não vai tomar seu tempo. Esse fenômeno é consequência da característica de dinamismo dos fluxos de informação, que se reflete na experiência subjetiva do usuário. O usuário vai passando por várias postagens, cada uma delas trazendo um conteúdo telegráfico, prático, que na maioria das vezes exigem apenas uma passada de olhos breve. Ela não toma seu tempo, num instante dá seu recado, e logo se vai. Assim, gera-se a impressão ilusória de que não vamos passar muito tempo nele: é só um ratinho passando, não um elefante.

O grande problema é que não se trata de apenas um ou alguns ratinhos: depois que passa um, dezenas de outros se seguirão. Transforme o elefante em vários hamsters e será menos provável que o indivíduo fique com medo dele.

Aí tem o efeito colateral: um hamster não pode fazer a mesma coisa que um elefante. Você pode curtir mil páginas sobre medicina, mas só vai virar médico de verdade se estudar de verdade. O curso é um elefante: grande, trabalhoso, inconveniente, ocupa espaço de outras coisas, fede...

Mas eu só fico poucos minutinhos no Facebook de cada vez” – é o que se passa na cabeça do usuário, sem se dar conta de que essa é outra característica do ratinho: a capacidade de caber em pequenos espaços. Mas, ao fim do dia, tempo ocupado é tempo ocupado: seja 10 vezes 5 minutos, seja 1 vez 50.

Mas eu só uso nas horas vagas!” Ou seja: nas horas vagas, em vez de relaxar os neurônios, revisar algo útil, ler páginas daquele livro que você não consegue terminar, você mantém a cabeça rodando com vida alheia, memes & autoafirmação. Se mantém distraído com “junk information”, informação de consumo fácil e valor duvidoso (similar à junk food), para aplacar sua ansiedade ou para fugir de atividades mais “difíceis” (informação de verdade ou comida de verdade é sempre mais trabalhoso). Ratinhos não substituem elefantes.

Informação Direcionada

A internet tem muita informação, mas é informação sem valor.

Teoricamente, pode-se aprender qualquer coisa na internet. Mas na prática só o q é aprendido profissionalmente, num curso oficial, é q vai lhe dar uma qualificação respeitada. Na prática, internet ou é entretenimento (incluindo aí aquelas curiosidades interessantes, que são cultura, mas são secundárias), ou é perda de tempo.

Não é à toa que diz o ditado: o que é de graça não tem valor. Não é por acaso que é de graça. O conteúdo de mais valor, aquele que efetivamente vai lhe dar um lucro, é geralmente pago. É preciso uma contrapartida.

Um exemplo: você poderia, teoricamente, aprender todo o conteúdo do curso de medicina estudando por conta própria, nos livros e na internet – tirando as habilidades que requerem vivência prática, claro. Basta saber o que procurar, onde procurar.

É justamente aí que está um problema: saber onde e o que estudar. O curso de verdade dá a informação direcionada e contextualizada. Não se trata de informação exclusiva, mas de informação direcionada, curada.

Mas não é só isso. O que o curso real também garante é a consistência. Ele obriga você a estudar com regularidade durante anos. E isso, mesmo sendo pouco tempo por semana, é muito. É muito comparado ao cara que não estuda nunca, ou que estuda bem muito uns dias e depois abandona. É um caminho já preparado para você trilhar. Basta agora se manter nele.

(Uma observação importante: certamente esse é um retrato idealizado de como os cursos deveriam ser. Sabemos, porém, que é muito real a possibilidade passar por uma faculdade (inclusive as com nome), por exemplo, sem ter adquirido qualificação de fato. Porque falta organização, falta sistemas adequados de avaliação, falta parâmetros programáticos claros para os estágios, sobra “eu finjo que ensino, você finge que aprende, e a gente reza para que o aluno tenha a dignidade de procurar se preparar direito”. Mas não vamos discutir isso por ora)

Às vezes, nos cursos, acontece de nos depararmos com informações que já tínhamos obtido de graça. O que acontece então é curioso: agora percebemos que essa informação pode dar lucro. Após ver aquele conteúdo, que você já possuía, ser dado no curso, pode agora usar a mesma informação profissionalmente com a segurança de poder afirmar: isso aqui é oficial, foi meu professor que disse, foi meu diploma que me autorizou a falar! Ou seja, não se trata simplesmente de informação direcionada, mas informação validada, credibilizada, e por isso passível de ser capitalizada.

Informação sem uso é entulho. É como ter uma casa cheia dos mais diversos instrumentos, insumos, equipamentos, etc., mas que não são usados. Eles até poderiam ser úteis hipoteticamente, mas na realidade só fazem ocupar espaço, juntar poeira e dar trabalho, sendo apenas penduricalhos para passar falsa impressão de plenitude. Ir atrás de novas informações é uma ótima desculpa para não usar a informação que já se tem – porque pôr a mão na massa é mais desconfortável que teorizar. E esse é outro aspecto que o curso geralmente garante: a aplicação prática, passo essencial para transformar o valor simbólico da informação em valor concreto (pelo qual vão pagar).

Direcionamento, consistência, validação e aplicação. O mercado paga por quem fez o curso. Procurar o certo é a melhor forma de evitar arrependimentos e perda de tempo. O improvisado pode parecer mais conveniente, mas também tem maior chance de não entregar o que se deseja.

Como isso funciona?

O que é Facebook? É um site.

E o que todo site quer? Audiência, ou seja, visualizações.

Para conseguir isso, é preciso ter conteúdo com qualidade e quantidade adequadas. Aliás, o termo “qualidade” é discutível: melhor dizer que, independente de ser de gosto duvidoso ou não, o conteúdo deve de alguma forma ser atraente. E as postagens devem ser em frequência suficiente. Não adianta fazer uma postagem maravilhosa, mas só publicar algo a cada 6 meses. Também não adianta ter muito conteúdo se ele não atrair ninguém.

O que é que atrai as pessoas para um site? Várias coisas: serviços úteis, relevância, qualidade, exclusividade, apelo emocional, entre outros. Mas vou citar dois importantes: a vida pessoal dos outros e a possibilidade de se exibir. E tem uma peculiaridade nesse par: quando fazemos um, estamos gerando o outro. Ao postar uma foto legal ou um texto esperto, você está se exibindo e nutrindo seu ego, ao mesmo tempo em que gera assunto que os outros gostam de ver.

Assim temos uma máquina ideal que gira infinitamente, nutrindo a si mesma.

E como garantir que haja conteúdo em abundância?

  • Permitir que os próprios usuários produzam o conteúdo.
  • Facilitar ao máximo a produção de conteúdo.
  • Estimular a produção desse conteúdo (os usuários têm necessidade de produzir; de fato estão viciados nisso).
  • Facilitar o acesso a conteúdo.

FB e vc

O Facebook não precisa criar conteúdo. Ele até cria, mais por uma questão de etiqueta que de necessidade. Tem a fanpage oficial da empresa, onde colocam recados aos usuários, atualizações, notícias sobre si mesmo, só coisa que não ofende ninguém e que passa boa impressão. Eles precisam mostrar que estão presentes e que se importam com a comunidade.

Nas últimas décadas houve a escalada global do acesso à informação. Inicialmente, o acesso se dava através de revistas, jornais e das próprias interações pessoais. Depois, surgiu o rádio. Depois a televisão. Depois a internet, inicialmente só com computadores grandes e em horário e velocidade restritos. E chegamos ao estágio atual com smartphones dando acesso à internet 24 horas por dia, em qualquer lugar, permanentemente com o indivíduo, distante apenas poucos movimentos de mão e dedos. Se antes era um bem separado, a que tínhamos acesso circunstancialmente, hoje pode-se dizer que a internet quase faz parte do indivíduo normal (num país com condições de desenvolvimento mínimas, claro).

Mas não é só o acesso que ficou facilitado, mas também o processo de produção. Cada perfil ou fanpage no Facebook é, de fato, um site. Cada pessoa ali tem seu site, e o que é que todo site quer? O quê, o quê?? Atenção. E para isso, ele quer gerar conteúdo. Ao criar um perfil no Facebook, na prática estamos criando um site muito fácil de gerenciar e alimentar. Facebook é como uma plataforma de blog otimizada, com fluxo de informação muito mais intenso que os blogs tradicionais.

As pessoas querem atenção, autoafirmação, aprovação, e a vida alheia.

A atenção, embora possa ter como objetivo final a obtenção de aprovação, pode vir separada dessa. É a atenção pela atenção: “falem mal, mas falem de mim”.

A autoafirmação vem antes e é separada da aprovação. Quando você posta algo, você sente prazer antes mesmo de receber curtidas dos outros, só pelo seu autojulgamento. Da mesma forma, quando você veste uma roupa bonita pra sair de casa, você se sente bem só de se ver no espelho, antes mesmo de sair e receber algum elogio.

Depois, se o elogio (aprovação) vier, melhor ainda.

A vida alheia é a cereja do bolo que nos faz ego curtidasficar ansiosos por estar lá. Não se engane: não é pela fanpage do Drauzio Varela ou do jornal que a pessoa fica viciada,  nem é pelos sites de humor. Para atrair de verdade uma pessoa, é preciso gerar uma ânsia, uma expectativa. Sabe aquele prazer que temos quando contamos uma fofoca, quando falamos um podre de alguém, quando puxamos o amigo dizendo: “ei, você soube o que aconteceu”? É por aí. É atraente porque é pessoal.

Claro, não só de páginas pessoais vive o facebook. Tem também páginas profissionais e comunidades. Criadas por usuários também, que querem (o quê?) visualizações. E como tem muita gente circulando, tem muito anúncio também. Mas se fosse só um portal de páginas institucionais, discussões, artigos e propaganda, seria uma chatice.

No meio do besteirol e fuxico tem umas páginas sérias (pra gente se achar sério e dizer que precisa daquilo), no meio das páginas sérias tem besteirol e fuxico (pra gente achar legal). A gente entra lá esperando encontrar algo interessante que pode estar mais embaixo no feed – algo que, aí sim, valha a pena e nos traga a satisfação. Uma mensagem, uma foto, uma declaração, uma curtida que alguém deu na foto daquela criatura.

Esse é o mecanismo de recompensas variáveis intermitentes, também conhecido como “caça-níqueis”. Puxamos de novo a alavanca na expectativa de sair algo bom. Ao tentar de novo pode acontecer de tudo, inclusive nada. E expectativa é ruim. Quando você tem, quer aplacá-la.

Comparo a rede social com o ato de andar no shopping: um lugar elegante e agradável, cheio de gente bonita (ou pelo menos arrumada), e muitas vitrines oferecendo felicidade pra todo lado. Tem coisa séria no meio, mas geralmente não é só por isso que vamos pra lá. Podemos até ir pra lá com um propósito austero em mente, porém, uma vez lá dentro, não dá para vendar os olhos pro ambiente e seus apelos.

Teoricamente, você pode usar o FB de modo controlado. Ter nenhuma, ou quase nenhuma, página de besteirol; seguir ninguém ou quase ninguém. Aí sobra pouca coisa para aparecer no seu feed. Quando você abrir o FB, não vai ter quase nada pra ver, aí só vão restar duas opções: ou sair e procurar algo pra fazer ou procurar ativamente por mais coisa pra ver na rede social (xeretar perfis, ou procurar páginas pra curtir).

Tudo muito bonito até aí. Até que percebi que tem outro problema: você começa a querer mais.

Por que nem todos conseguem manter o controle por muito tempo? Porque o FB vicia. As poucas curtidas que você receber ou besteiras que lhe distraem e preenchem sua cabeça vão lhe dar pequenas doses de prazer intermitente, ou vão satisfazer sua necessidade de prenchimento. E mesmo sem se dar conta disso, essas coisas podem lhe viciar. Assim, é preciso um autocontrole firme para não ir escorregando de novo no mar de merda, até se ver submerso até a cabeça de novo. Como um ex-viciado que estava usando o cigarro moderadamente… até começar a querer mais um, e mais um, e que em breve vai estar novamente fumando duas carteiras por dia.

Até o layout da coisa é perverso: a “página única infinita”. Quando você acessa um site comum, a página termina logo. Para ler mais, você tem que ativamente mudar de “ambiente” para ver mais coisa; você tem que procurar e escolher outra seção para clicar. Mas esse ato envolve necessariamente uma deliberação da parte do indivíduo, e nesse processo vai se iniciar um julgamento crítico na sua mente.

“Hunn, o que eu quero ver agora?” – ao fazer essa pergunta para si mesmo, vai se iniciar um processo influenciado por variáveis como responsabilidade, relevância, maturidade, disposição… Ao fazer essa escolha, uma parte de você vai julgar a si mesmo. A chance de escolher abdicar de futilidade é maior. A chance de escollher parar de ver besteira é maior. Tudo porque você, de fato, PAROU pra pensar no que fazer a seguir.

Com o esquema de feed de rolagem esse passo, inconveniente aos negócios, é suprimido. Porque as informações são jogadas na sua cara sem que você tenha que pedir por elas toda vez. Numa página comum da internet, a página “acaba” logo depois de rolar um pouco. Nas redes sociais, você rola infinitamente. Não acaba nunca. E existe um  instinto engraçado na nossa mente de querer ver as coisas até o fim. Quem tem esse impulso descontrolado – uma espécie de compulsão ou só uma desculpa pra fugir das responsabilidades – vai ser sugado pelo desejo de rolar mais, mais e mais. A expectativa pelas recompensas variáveis (“se eu descer mais um pouquinho pode ter algo interessante!”) contribui para a rolagem sem fim.

Recompensas variáveis intermitentes, oferecendo otimizadamente do que mais atrai os humanos (atenção, aprovação, autoafirmação, vida alheia, distração). Oferta de coisas úteis também, para arrebatar quem tava em dúvida e disfarçar um pouco a natureza fútil da rede (“eu uso porque preciso!”). Tudo isso jogado passivamente na sua cara na forma de um rolo único infinito, para que você não tenha oportunidade de decidir parar. Assim funcionam o Facebook e outras redes sociais, armadilhas fascinantes de roubo de atenção, tempo e energia, filhos oportunistas da era da informação, da tecnologia e do consumismo.

Ninguém Merece

Ninguém merece nada. O que existem são causas, consequências, variáveis que podemos controlar e variáveis que não podemos controlar.

Se você é espiritualista, então crê que nada é por acaso – tudo tem um propósito, seja por causa do karma, Dharma, destino, missão de vida, resgates, ou desígnios de deus.  Então todo mundo merece o que tem. Pois se Deus é infalível, então todo mundo, de alguma forma, merece o que tem atualmente – quer você concorde ou não. Você pode simplesmente enxergar Deus como O Grande Relojoeiro que não precisa ficar ajustando ou consertando o relógio perfeito que criou. Não precisa ficar julgando, premiando ou castigando ninguém, apenas a criação se rege sozinha com suas leis, perfeita que é, e tudo depende de como você interage com essas leis naturais. Assim, se você acha que alguém não merece, então está admitindo que Deus tá dando mancada.

Se você é materialista, então tudo é por acaso. Tudo é determinado pelo contexto em que nasceu, sua educação, sua biografia, genética, cultura, e as informações de que dispõe. Um monte de fatores controláveis ou não, e sorte ou azar. Alguns já nascem com muita coisa garantida, outros precisam lutar muito pelo mais básico (saúde, segurança, água, comida, teto, integridade física, etc.). Por mais que siga os manuais de auto ajuda ou empreendedorismo, você ainda pode fracassar. Não tem mágica: os princípios  podem aumentar suas probabilidades de sucesso, mas não o garantem. Então ninguém merece nada.

O conceito de merecimento é uma forma de tentar encaixar o caos do mundo nas nossas concepções culturais, um sinal de apego ao julgamento e de não viver no presente. Serve também como uma boa desculpa para gostar de ver alguém se lascando.

Achar que há um sistema básico de merecimento no universo é admitir a existência de algum julgador por trás de tudo, e que esse julgador segue os mesmos parâmetros humanos. Um pouco arrogante, não é?

Da Efemeridade – relato de um participante do espetáculo “As Novelas da Minha Vida”

Engraçado como as coisas são efêmeras. Engraçado, aliás, como vivemos como se não fossem. A efemeridade foi jogada na minha cara nesse domingo, 26 de março de 2017.

No começo fiquei com um pé atrás. Afinal, nunca gostei das apresentações acadêmicas e poderia me arrepender de assumir o compromisso e os gastos. Mas logo vi que é muito diferente quando se trata de algo que você realmente quer fazer e gosta, e tem tempo pra preparar com calma.

VID-20170211-WA0004-ANIMATION
Passamos meses ensaiando, preparando figurinos, investindo tempo, energia e dinheiro, e sentindo emoções diversas no percurso: satisfação, orgulho, impaciência, ansiedade, frustração, etc. O processo foi gradualmente se intensificando até atingir o clímax na noite de sábado 25. E então, de repente, já passou.
IMG-20170326-WA0044
Não importa mais a roupa, os passos, a técnica. Restou  algum efeito residual das lembranças e, para alguns, a vontade de rever mil vezes a filmagem pra relembrar o gostinho.

Uma especie de ressaca bateu no dia seguinte. Fui caminhar com o cachorro e, como sempre fazia, quando cheguei num salão do condomínio pensei em revisar a coreografia. Aí lembrei que não precisava mais fazer isso, sem saber se senti alívio ou falta. Agora que não tenho mais essa meta, qual será meu propósito de vida?

Não foi algo sumido aos poucos: uma hora a coisa enorme estava ali, e no curso de umas duas ou três horas não tava mais. Mas essa era a natureza mesma da coisa. Não se trata de uma pintura que você faz e fica lá. Era uma apresentação para ver e pronto. O propósito era gerar um momento especial.
IMG-20170326-WA0028
Agora vendo de fora, muda-se a perspectiva. Antes eu não tava nem aí pra comprar a roupa, e agora penso: “rapaz, será que vou usar essa calça de novo alguma vez?”  “Pensando bem, até que foi caro”… “Devia ter passado mais tempo com ela no baile”.

Valeu a pena? Deve haver várias respostas possíveis para essa pergunta. Uma que eu escolho, para meu próprio bem,  leva em conta o resultado. Cumpriu-se o objetivo? Sim. E cumpriu-se bem.  Eventos agudos são tudo ou nada: não dá tempo pra consertar muito no meio do processo. Assim sendo, independentemente do investimento, valeu muito a pena. Investimos muito para o resultado ser ótimo. E só investindo seriamente é que garantimos isso.

E conseguimos. O que fica não é a obra em si (pois essencialmente se tratava de um momento), mas a experiência e a satisfação de termos sido capazes de concretizar uma obra marcante.

IMG-20170326-WA0042

Em homenagem à Escola Roberto Pereira, aos professores Catarina e Bruno e a minha turma super legal. Um prazer conviver com todos.

Não é autoajuda empreendedora

“A primeira coisa que você tem que fazer pra subir na vida é parar de se fazer de vítima”.

Disse um profissional de lá onde estou estagiando.

De primeiro senti uma ponta de aversão por achar que seria o início de um discurso de um conservador contra as políticas sociais e qualquer coisa “de esquerda”. Mas nem era…

O cara deve saber o que diz: veio do interior, de uma cidadezinha que tinha nada, de família humilde, e agora é um bom médico na capital.

*

Não é autoajuda motivacional empreendedora.

O que não gosto nesse tipo de literatura é como eles fazem parecer que basta se esforçar e seguir os “princípios” para a pessoa se tornar um milionário.

Como se fosse uma certeza mágica de que o universo vai conspirar ao seu favor, e não apenas uma possibilidade.

Você não vai ser Steve Jobs se ler A Mente de Steve Jobs. Steve Jobs investiu na coisa certa, na hora certa. Ou porque teve sorte ou porque teve a capacidade para ter tal visão acertada.

Mas nem todo mundo vai ter essa sorte. Nem todo mundo, por mais esforçado que seja, vai ter a visão. Tem coisa que é talento, é genes, é daquela biografia peculiar.

Você pode seguir tudo que diz no manual do milionário e ir à falência. Sucesso não é só questão de insistir. Tem gente que simplesmente não vai poder insistir. Vai ter que desistir porque senão vai se lascar mais ainda.

Não há garantias. Não é mágica (isso se você for materialista. Caso acredite em Deus, talvez acredite que de fato Ele vai lhe ajudar se fizer tudo certinho).

Mas há melhora das chances.

O Steve Jobs poderia até não ter conseguido chegar onde chegou. Mas, com a atitude dele, ele provavelmente teria conseguido, no mínimo, ser um adulto independente financeiramente, com uma carreira legal.

Porque “sucesso” é um conceito relativo. E aí reside outra coisa que não gosto no discurso empreendedor de autoajuda: a ideia de você só é digno de respeito, só é um homem-alpha-respeitável se for rico. Se não, é um fracassado-beta (e esquerdista!) que não soube ter o caráter certo.

Pra ganhar muito dinheiro você precisa ir atrás disso. Se dedicar a isso. Só que, para muitas pessoas, pode ser que sucesso signifique ter um emprego digno, uma vida tranquila, poder fazer seus hobbies, correr na praia, criar seus gatos. Mesmo que não ganhe fortuna.

*

Não estou negando as injustiças sociais ou negando que haja privilegiados. Isso não tem nada a ver com ódio aos nascidos em berço de ouro.

Muitos dos alunos da faculdade de direito ou de medicina, se tivessem nascido em um contexto desfavorável, não estariam ali. Pelo menos não com o grau de esforço que tiveram que empregar. Eu mesmo não estaria.

Porque a maioria das pessoas está “na média”. A maioria vai ser esforçado na média. A maioria vai ser talentoso na média.

Imagine 100 corridas, cada uma delas entre um cara com pernas tortas contra um com pernas boas. Na maioria das vezes, quem vai ganhar? Claro que vai ter casos em que o de corredor de perna torta vai ganhar. Mas serão minoria. Silvio Santos é minoria. Ele não pode ser tomado como parâmetro. O meio vai, sim, influenciar a população nele inserida  de modo estatisticamente evidente. Uma carrada de gente vai continuar na merda. Não porque são pessoas sem caráter, mas porque são gente, e gente média não é Sílvio Santos.

Porém, até para combater as desigualdades sociais é preciso parar de se fazer de vítima. Porque para conseguir fazer seu trabalho social você vai ter dificuldades. E se você apenas disser: “ah, é muito difícil, não dá”, você não vai fazer mesmo nada.

É preciso dizer:”É difícil. Ok. O que preciso fazer pra chegar lá? Vamo lá fazer.”

A vida vai lhe tratar mal. Você vai cair. Mas se já sabe cair, ao menos tentou ficar em pé? Você pode não conseguir se levantar: não há garantias. Pode conseguir ou não. Mas se cair no chão e ficar lá chorando, vai ser 100% de certeza de que não vai levantar.

Deixar de se fazer de vítima é ser proativo, é encarar mesmo sem as condições ideais, é ir fazer mesmo sem uma mão gentil para lhe pegar na mão.

Você pode dizer: “eu tenho uma dificuldade“. O problema é você dizer “tenho uma limitação“. Já abandonou a possibilidade de ir além.

Não é discurso de autoajuda empreendedora. É só uma posição pragmática, independente do que você considera como sucesso.

É não colocar a culpa nos outros, assumindo a responsabilidade para mudar para melhor. Não que os outros ou o sistema não possam ter culpa: até podem… Mas não serão eles que vão te ajudar a levantar. Vai ter que ser você mesmo.

Vale para qualquer mudança na vida, até pra pegar mulher. Tem gente que nasce desfavorecido de certas qualidades. Tem gente que nasce sem os genes do pegador. Mas adianta se fazer de vítima? O que adianta é assumir responsabilidade e lutar para se tornar uma versão melhor de si mesmo.

Reclamar é bem mais fácil que encarar a luta para a evolução física, psíquica, profissional. Mas, em longo prazo, você vai se arrepender de se fazer de vítima, rapaz.

Não se fazer de vítima é pra não ser vítima de si mesmo.

Colecionar Amigos

A necessidade de excluir amigos do Facebook é discutível.

Os que se opõem a esse ato defendem que, ao cortar a conexão com uma pessoa, você pode perder o contato de alguém que um dia pode ser útil. Aquele seu colega do trabalho pode parecer desinteressante hoje, mas amanhã ele pode lhe dar uma ideia nova, ou quem sabe ele possa adquirir uma qualificação que no futuro lhe seja útil. Conferir o perfil dele de vez em quando pode ser benéfico, pois eventualmente pode haver algo ali que expanda sua visão de mundo ou algo que lhe interesse.

Os que defendem a “economia de amigos” afirmam que, a menos que você seja um eremita, a vida sempre vai lhe oferecer possibilidades de “expandir seus horizontes”, independente de redes sociais. E se estiver precisando de algo, basta perguntar que você vai acabar achando. Acumular “contatos virtuais” porque um dia podem ser úteis é como acumular objetos que ficam anos acumulando poeira, intocados, por medo de jogar fora.

É útil, porém, reduzir os amigos que você “segue”. Assim, só vão aparecer no seu feed as atualizações de quem lhe interessar. Afinal, não me interessa saber que uma pessoa com a qual não tenho menor amizade foi a uma festa. Já que o tempo de “uso recreativo” (que pode incluir rolar o feed) é limitado, e melhor que seja bem gasto!