É Preciso Ócio

Para se produzir algo, é preciso tempo livre.

E tempo “livre” significa livre mesmo. Não fazer nada, para poder sentar e pensar, escrever, estudar.

Só que ficar no Facebook, Instagram ou similares não é tempo livre. É isso que as pessoas costumam fazer quando têm tempos livres.

Mas navegar nas redes sociais não é ficar livre, pelo contrário: é manter a mente ocupada e desgastar-se mais.

O problema não é o excesso de ócio, mas justamente o oposto. As redes sociais impedem o ócio. Na verdade, esse é o objetivo mesmo delas.

Mas o ócio é necessário. Sem ele, como deixar a mente livre para trabalhar nas suas próprias ideias? Como, se a qualquer sinal de monotonia pego logo um novo rolo de informações pro cérebro processar?

Apenas sentar à mesa e pensar no que fazer. Planejar. Depois estudar, ou escrever, ou ler um livro, ou levantar para fazer outra coisa que não pode ser ali sentado. Tudo só foi possível se deixei o celular pra lá, se não abri a aba extra no navegador, se disse “não” ao chamado.

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O Mar de Merda

Tudo que é muito comum é vulgar. Algo que tem em todo canto, que é fácil de obter, não tem valor.

Há uma horda, um exército de páginas de humor, que produzem um oceano de piadinhas, geralmente bestas. Uma das características centrais das redes sociais é a facilidade de se produzir conteúdo, que se torna mais fácil ainda de criar com as fórmulas prontas reutilizadas à exaustão – os memes. Produzir meme é esporte, é sinal de esperteza, status de legal, e é também uma ótima forma de produzir conteúdo sem precisar ter conteúdo.

É muito tempo, muita energia elétrica, muita energia humana, muito espaço nos servidores dedicados ao nada. Por que as pessoas querem, precisam postar conteúdo, precisam de cliques. E que conteúdo elas têm?

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Não que uma leseira de vez em quando seja ruim. Só que é muito além do necessário para contrabalancear algum eventual estresse. Ao navegar pela rede, parece que há agora palhaços me abordando a cada minuto para oferecer: “Diversão! Diversão!”, e eu não tenho tanto aborrecimento assim pra desopilar. Já dizia meu mestre: “Tudo demais é demasia”.

Suspeito que a oferta de entretenimento seja muito maior que a nossa capacidade (ou necessidade) de consumi-la. Ainda assim, cada vídeo merda daquele tem milhares ou milhões de visualizações. Cada visualização toma tempo. Mas o dia continua tendo 24 horas. A população consumidora não muda muito rápido. A conclusão a que chegamos só pode ser uma: estamos dedicando mais tempo com atividades de valor questionável.

O mar de merda está aí, e ele necessariamente ocupa um espaço.

O Viajante

Se não viajo no Facebook, viajo no Youtube.

Se não viajo no Youtube, viajo no email ou na internet em geral.

Se me desconectam da internet, viajo nos arquivos do próprio computador.

(daria pra me ocupar por meses se apenas estudasse o que já tenho acumulado no HD, sem procurar nada a mais na internet).

Se me privam de qualquer computador (seja de mesa ou de bolso), viajo nos próprios pensamentos. Se tiver caneta e papel, melhor.

E deles eu não posso me livrar – pelo menos não permanentemente. Com esses eu vou ter que lidar.

O problema tá na frente da tela

Depois de ficar 10 meses sem redes sociais e não ter visto melhora clínica, a impressão que tenho é que as mídias sociais não são a causa de problemas novos.

Quem era focado antes delas vai continuar sendo focado com elas (antigamente não tinha whatsapp, não tinha facebook, não tinha computador com internet 24h no bolso). É até comum ocorrerem episódios ocasionais de descontrole, em que o indivíduo perde muito tempo navegando futilmente na internet. Mas depois dessa experiência a pessoa focada geralmente “fica esperta” e não deixa isso ocorrer de novo. Pura falta de experiência, ou um momento de fraqueza.

Já o sujeito disperso vai continuar preso nesse padrão, repetindo ciclos de libação, ressaca moral, desorganização de vida, hipercompensações. Só que o sujeito disperso já vivia assim antes – usando recursos diferentes. E provavelmente continuará vivendo assim se for retirado à força das mídias sociais.

Apenas questão de adaptação de uma estrutura básica às circunstâncias externas.

Experiência Didática

Experiência muito didática é ficar com a bateria do smartphone prestes a acabar e sem poder recarregar nem tão cedo. Recomendo.

Veja bem: não é ficar sem celular. Isso não é tão didático, porque você não tem opção. Vai ficar sem usá-lo simplesmente porque não o tem.

Ficar com a bateria minguando obriga o indivíduo a rever as prioridades.

Primeiro você reduz o brilho da tela. Tira o som, tira a vibração. Desliga alguns aplicativos.

Depois, ativa a opção “restringir dados em segundo plano”. Aí aplicativos como WA, FB e email não vão mais ficar recebendo dados constantemente: você precisa deliberadamente abrir tais aplicativos para que, aí sim, eles recebam as mensagens.

Se a bateria baixar demais e você quiser se manter ainda comunicável, vai pensar em desligar toda conexão com internet, incluindo Wifi e 3G.

Você começa a pensar no quanto de “conexão” você realmente precisa. Começa a se perguntar por que não pode ficar algumas horas sem receber informações online – sabendo que, se fosse algo realmente urgente, iriam ligar.

Quando começar a procurar automaticamente pela luzinha que não vai acender, vai tomar um choque de realidade. Começa a refletir sobre qual a satisfação que aquela luzinha (ou fi-fi-fi, ou vibração) lhe traz, e em como você, que cordatamente não bebe nem fuma, chegou a esse estágio.

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Ratinhos

Talvez a característica mais ardilosa do Facebook, Instagram, Twitter e similares é a capacidade de tomar seu tempo enquanto dá a impressão de que não vai tomar seu tempo. Esse fenômeno é consequência da característica de dinamismo dos fluxos de informação, que se reflete na experiência subjetiva do usuário. O usuário vai passando por várias postagens, cada uma delas trazendo um conteúdo telegráfico, prático, que na maioria das vezes exigem apenas uma passada de olhos breve. Ela não toma seu tempo, num instante dá seu recado, e logo se vai. Assim, gera-se a impressão ilusória de que não vamos passar muito tempo nele: é só um ratinho passando, não um elefante.

O grande problema é que não se trata de apenas um ou alguns ratinhos: depois que passa um, dezenas de outros se seguirão. Transforme o elefante em vários hamsters e será menos provável que o indivíduo fique com medo dele.

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Aí tem o efeito colateral: um hamster não pode fazer a mesma coisa que um elefante. Você pode curtir mil páginas sobre medicina, mas só vai virar médico de verdade se estudar de verdade. O curso é um elefante: grande, trabalhoso, inconveniente, ocupa espaço de outras coisas, fede…

“Mas eu só fico poucos minutinhos no Facebook de cada vez” – é o que se passa na cabeça do usuário, sem se dar conta de que essa é outra característica do ratinho: a capacidade de caber em pequenos espaços. Mas, ao fim do dia, tempo ocupado é tempo ocupado: seja 10 vezes 5 minutos, seja 1 vez 50.

“Mas eu só uso nas horas vagas!” Ou seja: nas horas vagas, em vez de relaxar os neurônios, revisar algo útil, ler páginas daquele livro que você não consegue terminar, você mantém a cabeça rodando com vida alheia, memes & autoafirmação. Se mantém distraído com “junk information”, informação de consumo fácil e valor duvidoso (similar à junk food), para aplacar sua ansiedade ou para fugir de atividades mais “difíceis” (informação de verdade ou comida de verdade é sempre mais trabalhoso). Ratinhos não substituem elefantes.

Informação Direcionada

A internet tem muita informação, mas é informação sem valor.

Teoricamente, pode-se aprender qualquer coisa na internet. Mas na prática só o q é aprendido profissionalmente, num curso oficial, é q vai lhe dar uma qualificação respeitada. Na prática, internet ou é entretenimento (incluindo aí aquelas curiosidades interessantes, que são cultura, mas são secundárias), ou é perda de tempo.

Não é à toa que diz o ditado: o que é de graça não tem valor. Não é por acaso que é de graça. O conteúdo de mais valor, aquele que efetivamente vai lhe dar um lucro, é geralmente pago. É preciso uma contrapartida.

Um exemplo: você poderia, teoricamente, aprender todo o conteúdo do curso de medicina estudando por conta própria, nos livros e na internet – tirando as habilidades que requerem vivência prática, claro. Basta saber o que procurar, onde procurar.

É justamente aí que está um problema: saber onde e o que estudar. O curso de verdade dá a informação direcionada e contextualizada. Não se trata de informação exclusiva, mas de informação direcionada, curada.

Mas não é só isso. O que o curso real também garante é a consistência. Ele obriga você a estudar com regularidade durante anos. E isso, mesmo sendo pouco tempo por semana, é muito. É muito comparado ao cara que não estuda nunca, ou que estuda bem muito uns dias e depois abandona. É um caminho já preparado para você trilhar. Basta agora se manter nele.

(Uma observação importante: certamente esse é um retrato idealizado de como os cursos deveriam ser. Sabemos, porém, que é muito real a possibilidade passar por uma faculdade (inclusive as com nome), por exemplo, sem ter adquirido qualificação de fato. Porque falta organização, falta sistemas adequados de avaliação, falta parâmetros programáticos claros para os estágios, sobra “eu finjo que ensino, você finge que aprende, e a gente reza para que o aluno tenha a dignidade de procurar se preparar direito”. Mas não vamos discutir isso por ora)

Às vezes, nos cursos, acontece de nos depararmos com informações que já tínhamos obtido de graça. O que acontece então é curioso: agora percebemos que essa informação pode dar lucro. Após ver aquele conteúdo, que você já possuía, ser dado no curso, pode agora usar a mesma informação profissionalmente com a segurança de poder afirmar: isso aqui é oficial, foi meu professor que disse, foi meu diploma que me autorizou a falar! Ou seja, não se trata simplesmente de informação direcionada, mas informação validada, credibilizada, e por isso passível de ser capitalizada.

Informação sem uso é entulho. É como ter uma casa cheia dos mais diversos instrumentos, insumos, equipamentos, etc., mas que não são usados. Eles até poderiam ser úteis hipoteticamente, mas na realidade só fazem ocupar espaço, juntar poeira e dar trabalho, sendo apenas penduricalhos para passar falsa impressão de plenitude. Ir atrás de novas informações é uma ótima desculpa para não usar a informação que já se tem – porque pôr a mão na massa é mais desconfortável que teorizar. E esse é outro aspecto que o curso geralmente garante: a aplicação prática, passo essencial para transformar o valor simbólico da informação em valor concreto (pelo qual vão pagar).

Direcionamento, consistência, validação e aplicação: o mercado paga por quem fez o curso. Procurar o certo é a melhor forma de evitar arrependimentos e perda de tempo. O “improvisado” pode parecer mais conveniente, mas também tem maior chance de não entregar o que se deseja.